História


Por Amauri Eugênio Jr.
Segregação sanitária

Quem passa pela altura do número 1.800 da Avenida Emílio Ribas, em Guarulhos (SP), e pelo entorno, onde estão localizados o Teatro Padre Bento, a Igreja, o complexo da CDHU e demais bairros, como o Jardim Tranquilidade e Gopoúva, não imagina quão rica é a história do Complexo Hospitalar Padre Bento de Guarulhos, situado naquela região. Para muitos, o hospital trata-se de um local mantido pelo Governo do Estado de São Paulo, mas a importância do Padre Bento para a região onde está localizado, em especial para o bairro Gopoúva e Jardim Tranquilidade, é imensurável.

Para começar, o atual Complexo Hospitalar Padre Bento de Guarulhos foi inaugurado em 1931, na época com o nome Sanatório Padre Bento, no local onde já existia o Sanatório São Paulo e que havia sido adquirido pelo Governo de Estado. Lá eram internados compulsoriamente pacientes que tinham hanseníase e que, de acordo com a política sanitária então adotada, deveriam ser isolados do convívio com pessoas que não sofriam com a doença para que não fosse proliferada. Foram feitas, em 1934, as primeiras obras para ampliação da infraestrutura, para atender à crescente demanda de pacientes com hanseníase.

Em 1935, a capacidade do hospital já havia atingido a capacidade máxima até então, que era de 335 lugares, o que motivou a expansão do espaço em quase 378 mil m². Ainda nesse mesmo ano foi inaugurado o Teatro Cassino, foram construídos dois pavilhões, com capacidade para 300 leitos; uma escola profissional, uma igreja, uma casa paroquial e o pavilhão clínico, onde hoje funciona o centro cirúrgico. Além disso, o Sanatório Padre Bento era o único que contava com pavilhão destinado a menores hansenianos. Lá funcionavam o Grupo Escolar Jair de Miranda, destinado aos menores hansenianos, e a escola profissional, direcionada a jovens hansenianos, onde eram ensinadas várias profissões. Em 1956, o então departamento de profilaxia da lepra, nome usado à época para se referir à hanseníase, comunicara que o pavilhão central, composto por três edifícios e que já estava desocupado, seria demolido, pois sua estrutura já estava comprometida.

Humanos, demasiados humanos

Pode-se dizer que o Sanatório Padre Bento era uma cidade, mas que tinha como finalidade ser higienista, ao segregar pessoas hansenianas do convívio com quem não tinha a doença, para não propagá-la. Isso fica evidente ao considerar-se que, além do pavilhão e de infraestrutura escolar para menores hansenianos, havia prédio com cinema, salões de jogos e de festas, estádios de futebol e pérgula – uma lenda sobre a construção desse local é a de que namoros entre casais de hansenianos pudessem ser centralizados lá. Outro aspecto a ser ressaltado é a construção de residências destinadas a casais que se conheceram no sanatório e casavam. No entanto, mais uma página triste vem à tona: os filhos deles eram encaminhados a uma instituição em São Paulo. “Os pacientes tratados no sanatório somente ocupavam leito de internação quando apresentavam outras patologias e, normalmente, eles tinham alguma mancha ou áreas insensíveis". Assim, durante o dia, eles exerciam várias atividades, que contemplavam as culturais, de lazer e religiosa. Mas a grande mágoa dos pacientes foi por "termos sido presos sem termos cometido delitos", desabafa um antigo paciente do sanatório.

O início do fim

Os avanços no tratamento da doença resultaram, durante a década de 1960, no fim da internação compulsória. Outros fatores que interferiram significativamente nessa decisão foram a conclusão de que o Brasil era o único país que isolava pacientes com hanseníase, sendo que tal prática acontecia apenas em São Paulo. Com o passar do tempo, o sanatório passou a ser denominado Hospital Padre Bento, que era subordinado ao então Departamento de Hospitais de Dermatologia Sanitária. O pavilhão de menores foi desativado, o que fez os menores ocuparem quatro enfermarias do hospital que tinham características de alojamento. Como consequência, cada caso dos menores foi analisado, e eles foram encaminhados para suas respectivas famílias ou educandários.

O local onde funcionava o pavilhão para menores passou a abrigar o Hospital Adhemar de Barros, responsável pelo tratamento de pênfigo foliáceo, doença popularmente conhecida como “fogo selvagem”. Por fim, a Secretaria da Saúde optou por unir os hospitais Padre Bento e Adhemar de Barros, ao criar o Complexo Hospitalar de Guarulhos, que passou a ser o Complexo Hospitalar Padre Bento de Guarulhos. “Esse hospital é o único dos antigos sanatórios que não mantém colônias para hansenianos, o que não acontece com outros antigos sanatórios, que até hoje mantêm remanescentes dessa época. Além disso, esse hospital é o único que conseguiu dar destino à sua antiga área, com aproveitamento total para a comunidade”, narra um ex-funcionário, sobre suas impressões a respeito do antigo sanatório: “Essa é uma das razões pelas quais consideramos que o antigo Sanatório Padre Bento era destinado a pacientes que não tinham marcas graves da doença, assim como a classes sociais mais altas.”

Você sabia?

Parte da região no entorno do atual Complexo Hospitalar Padre Bento de Guarulhos hoje é conhecida como Jardim Tranquilidade, mas já teve outro nome: Bairro Allan Kardec. Segundo consta no livro “Jardim Tranquilidade – Um Bairro e Suas Lembranças”, de Maria Thereza Avelino Testone, a mudança do nome do bairro ocorreu por meio do loteamento de terrenos dali, feito pela Tranquilidade Companhia Imobiliária. Mesmo assim, digamos que há heranças relativas ao nome antigo, o que pode ser observado nos nomes de vias, como as ruas Jacob e Leon Diniz.

O escritor Marcos Rey (1925-1999), cujo nome verdadeiro era Edmundo Donato, foi interno no sanatório, mas conseguiu fugir aos 17 anos e teve como paradeiro o Rio de Janeiro. Em 2004, a editora Companhia das Letras lançou o livro “Maldição e Glória”, em que o biógrafo Carlos Maranhão conta sua história. Segundo sua esposa, o motivo do lançamento do livro foi por ela ter de esconder que Marco foi interno de um sanatório e, após sua morte, ela quis contar tudo o que os dois tiveram de enfrentar.

Hoje em dia

O Complexo Hospitalar Padre Bento ocupa área de aproximadamente 45 mil m², onde há 145 leitos planejados distribuídos nas seguintes clínicas: médica, médica infecto, cirúrgica, neurocirurgia, terapia intensiva e tratamentos de urgência 24 horas. No hospital são realizados atendimentos de diversas especialidades ambulatoriais clínicas e cirúrgicas; há serviço de fisioterapia e reabilitação física; atendimento 24 horas em pronto atendimento; residência médica e estágios reconhecidos pelo MEC (Ministério da Educação) nas áreas de dermatologia, oftalmologia, cirurgia bucal, clínica médica; entre outros serviços básicos para a população.

Linha do Tempo

1931 o Governo do Estado compra o Sanatório São Pedro e inaugura o Sanatório Padre Bento;

1933 criação da Sociedade Paulista de Leprologia voltada à pesquisa sobre hanseníase, sediada no Sanatório Padre Bento;

1934 são feitas as primeiras ampliações nas instalações do sanatório;

1935 aquisição de duas áreas, que totalizam quase 378 mil m²;

1936/7 construção de dois pavilhões para menores;

1972 a área do hospital, que à época totalizava 467.986.80 m², tornou-se grande demais, face aos avanços no tratamento da hanseníase, por meio de medicamento chamado sulfona. Esse fato culminou no início da fase de doações de parte da área para entidades diversas;

1991 adoção da nomenclatura atual (Complexo Hospitalar Padre Bento de Guarulhos).

Nomes Importantes

- Padre Bento Dias Pacheco, falecido em 1911, dedicou parte importante de sua vida ao amparo de pessoas com hanseníase.

- Aguiar Pupo foi o primeiro diretor do Sanatório Padre Bento, mas esteve à frente da instituição por 37 dias.

- Lauro de Souza Lima, seu substituto, ocupou o cargo de diretor por 19 anos.

 


Créditos | Amauri Eugênio Jr., 26, é repórter. Formou-se em Comunicação Social - Jornalismo na Uninove (Universidade Nove de Julho) e cursou Filosofia na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Este texto foi feito com base em dados históricos, relatos de antigos pacientes do Sanatório Padre Bento, informações da Secretaria de Estado da Saúde e do livro “Jardim Tranquilidade – Um Bairro e Suas Lembranças”, de Maria Thereza Avelino Testone.

 

Diretoria

• Drº Roberto de Almeida Duarte - Diretor Técnico de Departamento de Saúde no CHPBG
• Drº Aguinaldo Barcelos de Souza - Gerente de Medicina Interna
• Drº Marcus Vinicius Campos Bittencourt - Gerente de Clínica Cirúrgica
• Drª Fabiana Santos da Fonseca - Gerente de Urgência e Emergência
• Srº Luis Giachetta Neto - Gerente de Apoio e Diagnóstico Terapêutico
• Srª Walkyria Ap. Souza Dename - Gerente de Administração e Infraestrutura
• Srª Solange Maria Marchesano - Gerente de Recursos Humanos
• Srª Carmen Regina Pereira Rampaso - Gerente de Informação

 

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